Massa folhada e toalhas de renda

Texto de opinião

 

Agora temos um bebê! Perdemos a vergonha de nos comportarmos como crianças em público. É fantástico! É como ter uma licença para ser pateta! Fazemos caretas na fila do supermercado, brincamos no chão em casa dos amigos, fazemos ruídos que fazem lembrar um gago a encomendar o jantar num restaurante chinês. Quando, num acesso de sobriedade vemos a figura que estamos  fazendo, vemos algo ainda pior: os nossos pais fizeram pior…

As pessoas que me deram enormes sermões sobre a responsabilidade de arrumar o quarto, do  dinheiro da semana ter que durar mais que duas horas, de fazer os trabalhos de casa, de trazer de volta inteiro o carro da família a primeira vez que o conduzimos, e tantas outras palestras sobre sermos adultos, agora babamos como se tivéssemos saído do dentista, sobre o pequeno descendente da família…

É um choque tremendo vê-los assim, mas o que acontece é que têm um brinquedo novo e não são eles que pagam as pilhas…

Também é novidade para nós e regressarmos um pouco à infância, pelo menos à parte de brincar com as bonecas. Pegamos nos meninos e equipamos com a cor da nossa equipe favorita, fazemos cristas de gel no cabelo de envergonhar um galo e vestimos pior que um gangster de bairro social. No caso das meninas, como a minha, é pior…

A mãe e avós insistem em vesti-la com mais folhados que um pastel e mais rendas que um altar de igreja em dia de procissão…

-É uma menininha, tem que andar com vestidinhos! – Dizem-me. – Fica tão fofinha!

Sim, é uma menina. Sim, fica engraçada com um vestidinho e parecendo com  uma bonequinha de porcelana. Mas precisamente aí é que reside o problema, as bonecas de porcelana ficam quietinhas numa prateleira, a minha filha só fica quieta em duas situações: ou quando está  vendo os desenhos animados da sua preferência atual (que muda a cada vez que eu começo a saber o nome dos personagens) ou quando está  desprogramando o computador, quando alguém deixou um celular ao alcance dela (já vou no terceiro) ou que vou ter os tapetes decorados com pedacinhos de plasticina, outra vez…

Não gosto deste tipo de roupas na minha filha por duas razões: em primeiro lugar todos temos algumas fotografias em crianças que nos fazem pensar que mundo é que estariam as nossas mães quando nos enfiaram naquelas roupas (estou particularmente solidário com os que nasceram nos anos 70 e 80). Em segundo lugar acho que é preferível as crianças terem toda a liberdade de movimentos que necessitam, quer pelo conforto das roupas, quer por não ter sempre alguém “em cima deles” para não se sujarem ou amarrotarem.

Com um bebê em casa temos de trocar fraldas, dar banho, pôr cremes, vestir, despir, trocar fraldas e vestir outra vez, fazer comida, limpar  as bábas, adormecer, repetir… Sem contar com os extras, como idas ao médico, visitas, vacinas, febres, cólicas, etc. E no tempo que nos  resta, trabalhar, comer e dormir e as outras atividades que antes achávamos que o tempo não nos chegava para fazer…

Têm certeza que ainda querem juntar o lavar á mão e passar com  ferro essas roupinhas delicadas?

Há ainda um erro que temos tendência a cometer: há roupinhas que compramos com a justificação de que serve “para agora e para daqui a uns tempos”… Nove em cada dez vezes isso não acontece! A primeira vez que vestimos lhes um casaquinho, estava enorme, e passados uns tempos, quando voltamos a experimentar, está com os punhos quase nos cotovelos.

Já ‘despachamos’ roupas da minha filha ainda com as etiquetas porque durante dois ou três meses não fez frio ou calor suficiente para usá-las.

Outro erro de principiante é o de achar que o tamanho indicado na etiqueta tem alguma correspondência com o mundo real. Não sei onde vivem as pessoas que determinam o tamanho das roupas de criança, mas só devem ter visto crianças em catálogos. Com dois anos uma criança pode estar usando uma T-shirt para 8 meses e um casaco para 4 anos e estarem perfeitamente bem.

Assim, o que eu acabei por descobrir as minhas custas foi o seguinte:

  • Tentar comprar roupas práticas e baratas, as avós, tios e amigos normalmente encarregam-se das roupinhas de Domingo.
  • Preferir as sarjas e malhas de algodão porque mesmo com muitas lavagens não se nota tanto o uso.
  • As cores muito fortes e tecidos fracos tingem quando são lavados e pior, podem irritar a pele dos nossos bebês. Se as usarem, coloquem um ‘body’ ou uma t-shirt sem cor por baixo. É também preferível lavar as roupas a temperaturas mais altas do que usar detergentes fortes.
  • Se não puder levar o seu filho para experimentar os tamanhos, tente comprar as roupas que têm as medidas indicadas em centímetros (que as vezes acertam) em vez das que têm a idade indicada (que nunca acertam).
  • Não comprar roupas mais caras com a justificação de que também vão servir para o ano.
  • As lojas de roupa de criança em segunda mão têm coisas excelentes (sei porque já  troquei lá roupas que a minha filha só usou uma ou duas vezes).
  • Sapatos e sapatilhas são muito importantes, especialmente depois que começarem a andar. Os ossos e as articulações estãoformando e pouco preparados para sustentar o peso do corpo. É preferível andarem descalços que com calçado que não seja adequado. Aqui sim devemos investir um pouco mais, mas lembre-se que os pés do seu filho não precisam de grandes ‘marcas’ mas sim de apoio.

Obviamente, cada um vestirá o seu filho conforme achar melhor.

Podem achar que os rapazes podem andar à vontade e que as meninas são mais bonequinhas, mas eu vou sempre preferir a minha filha com a roupa cheia de nódoas de relva, transpirada e de olhos a brilhar do que sentada direitinha de vestido, por muito lindo que seja.

Publicado em 11 de outubro de 2013

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