O que fazer quando o nosso bebê sofre de refluxo?

Texto de opinião

 

Com este relato pretendo compartilhar a minha experiência, com a minha filha que possui refluxo gastroesofágico, na expectativa de ajudar os pais que estejam ou venham a passar pela mesma situação.

A partir da segunda semana de vida, a minha filha começou a ter o que vulgarmente designamos de cólicas com todos os sintomas típicos: choro persistente, prolongado e vigoroso, zona abdominal muito dura e inchada, flatulência e dificuldade para acalmar, apesar de todos os esforços…

Já conhecia vários casos e pensei logo que até aos três meses, aproximadamente, já sabia o que me esperava. No entanto, ao longo das duas semanas seguintes, fui percebendo  outros sintomas, nomeadamente, regurgitação pontual pela boca e pelo nariz, frequência elevada de movimentação do conteúdo gástrico ao longo do esôfago, mas sem ser expelido pela boca e, em consequência, engasgamento com apnéia, ou seja, a minha filha ficava sem respirar durante alguns segundos (para mim, uma eternidade…), com a face muito ruborizada e de olhos muito abertos. Este último sintoma começou a ocorrer com uma frequência diária e posso afirmar que era extremamente aflitivo, tanto para mim, como para a minha filha que se assustava muito sempre que isso acontecia e chorava desesperadamente. Confesso que vivi muitas vezes momentos de pânico. Ver o meu bebê, tão pequeno, sem respirar e pensar que podemos não chegar a tempo de acudir é mesmo das piores sensações do mundo… Além disso, a minha filha chorava constantemente, de tal forma alto, que chegava a “arranhar a garganta” e dormia muito pouco de dia e de noite, pois acordava com o leitinho  vindo-lhe à boca. Tinha um ar de permanente desconforto e não havia quase nada que  fizesse para acalmá-la. Naquela fase, as únicas coisas que ajudavam a sossegá-la um pouco eram colocá-la na posição de barriga para baixo, apoiada nos braços, sem apertos (os pais, normalmente, têm mais aptidão para esta posição, pois têm os braços e as mãos maiores que as mães e dão mais segurança ao bebè) e em constante movimento (qualquer parada provocava choro imediato). Quando se notava a barriga mais inchada, uma pequena massagem, ao mesmo tempo que se mantinha esta posição, ajudava bastante. Uma frequência maior das mamadas também ajudava a acalmar (muitas vezes, não conseguia sequer ter intervalos de duas horas, entre as mamadas).

Como se pode imaginar, este quadro não foi nada fácil de gerir, principalmente quando não conseguimos consolar o nosso bebê, vendo-o claramente desconfortável e, também, pelo cansaço acumulado. Como tinha medo que a minha filha se engasgasse e fizesse apneia, tinha-a sempre perto de mim e não conseguia praticamente dormir nem de dia nem de noite, estava num permanente estado de alerta.

A boa notícia é que nada dura para sempre! Embora não pareça enquanto estamos  vivendo esta realidade, a verdade é que as melhorias não demoram a chegar.

Naturalmente, quando percebi esta sintomatologia mais grave, consultei de imediato o pediatra que acompanha a minha filha e que não teve dúvidas no diagnóstico: Refluxo gastroesofágico. Esta doença corresponde ao fluxo retrógrado e repetido do conteúdo gástrico para o esôfago, resultante da imaturidade dos mecanismos de barreira anti-refluxo e é, normalmente, de evolução benigna. É caracterizado pela presença de regurgitações. No caso da minha filha estamos perante uma tipologia mais invulgar, refluxo oculto (quando os sintomas são manifestações respiratórias, otorrinolaringológicas ou indicativas de esofagite – irritabilidade, choro constante; e há ausência de regurgitações ou vômitos).

Por aconselhamento médico foram tomadas algumas medidas, muito úteis e que rapidamente revelaram os seus efeitos:

  • Elevação do berço num ângulo de 30º (utilizei uma almofada da largura do berço, por baixo do colchão);
  • Medicação anti-refluxo (xarope de Domperidona);
  • Espessamento do leite (nesta altura, a minha filha além do leite materno tomava um suplemento de leite adaptado, tendo-se experimentado a introdução de um leite de fórmula anti-regurgitação, ao qual reagiu com muitas cólicas, tendo-se então optado pela mistura do leite adaptado normal com um espessante adquirido em separado);
  • Após cada refeição, colocar o bebê em posição erecta durante cerca de 30 minutos;
  • Além destas medidas, e em resultado de algumas pesquisas, foram adaptadas outras:
  • Troca da fralda sempre antes da mamada, para evitar grandes movimentos após a mesma, exceto nos casos de fralda suja e não só molhada, sendo que  a troca de fralda após a mamada, é aconselhável fazê-lo de lado, evitando levantar as pernas;
  • Elevação de todos os locais onde o bebê se encontre deitado (fraldário, espreguiçadeira, tapete de atividades,…);
  • Maior frequência de refeições, com menor quantidade de leite/alimentos por refeição;
  • Amamentar com o bebê quase sentado, evitando a posição mais deitada;
  • Durante o período de amamentação, deve-se ter muito cuidado com todos os alimentos que são ingeridos, pois muitos deles podem agravar o refluxo. No meu caso, tinha de evitar: legumes muito verdes ou ácidos e leguminosas (evitava todo o tipo de couves, tomate, ervilhas, feijão), comida condimentada, bebidas com cafeína;
  • Evitar vestir o bebê com roupa apertada na zona abdominal.

Assim, com a introdução de todas estas medidas, e com a maturação do próprio sistema digestivo, progressivamente a minha filha começou a melhorar. Por volta dos dois meses e meio deixou de ter episódios de engasgamento com apneia, o que para mim foi um alívio imenso, e em vez de chorar desesperadamente ao longo de todo o dia, começou a ter uma ou duas crises fortes por dia. Com o desenvolvimento, ela foi interagindo mais e distraindo-se com os estímulos adequados à idade, o que também ajudou para que ela conseguisse tolerar melhor os efeitos do próprio refluxo.

Ao longo do tempo, novos desafios foram surgindo, os mais recentes relacionados com introdução de novos alimentos, tanto a papa como a sopa, que fizeram engatilhar alguns retrocessos no quadro de refluxo. A verdade é que, nestes casos, qualquer alimento deve ser introduzido muito lentamente. No entanto, nota-se uma evolução muito positiva da sintomatologia de refluxo gastroesofágico e hoje, com quase seis meses, a minha filha é uma bebê muito bem-disposta, que encanta com sorrisos e gargalhadas!

Publicado em 7 de outubro de 2013

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