Quando é que nos tornamos pais?

Texto de opinião 

 

© Miguel Macedo | Rede Mães de Minas

Durante muito tempo não quis ser pai. Quando me questionavam sobre o assunto respondia com as frases feitas de costume, sobre ainda não ser o tempo certo, o apartamento ser pequeno, queríamos esperar alguns anos para curtir o casamento e por aí adiante. Quando começavam a pressionar demais respondia com humor negro de modo a escandalizar de tal modo a pessoa que se via obrigada a mudar de assunto.

Quando a minha sogra, após um mês de casamento, mencionou que talvez fosse altura de começar a pensar em bebês, perguntei-lhe se gostava de crianças. A cara iluminou-se como as decorações de Natal numa loja chinesa e disse que sim, perguntando esperançosa se eu também gostava. –Claro que sim! –Respondi – Temos que trocar receitas!… Ao que o assunto não voltou a ser tocado durante uns meses.

As minhas razões sinceras eram várias; tinha um medo terrível que a criança nascesse com uma deficiência, que não tivesse dinheiro para a criar, que a mimássemos de mais ou de menos ,que ficássemos presos em casa em vez de passar fora fins-de-semana e férias e todo um sem-fim de razões mais ou menos lógicas e egoístas.

Ao fim de dois anos de casamento, o relógio biológico da minha mulher começou a tocar… Uma vez que não sou uma pessoa matinal, consegui passar por uma soneca uma ou duas vezes, para dormir mais dez minutos…

Infelizmente, essa soneca dá-nos mais uns paradisíacos minutos na cama, mas eventualmente temos que nos levantar…

Quando começamos a tentar engravidar, fiz planos para ser pai de fim-de-semana; chegar a casa, brincar um pouco com a criança e deixá-la aos cuidados da mãe. Uma vez por outra, ao fim-de-semana, se a minha agenda social o permitisse, ir dar uma volta com o bebê e, de preferência, deixar as avós passar a tarde com ele.

Pois bem, todos os planos são excelentes até chocarem de frente com a realidade!

A gravidez foi extremamente complicada porque a minha mulher começou a sofrer de uma doença psicológica e não podia ser medicada para não causar danos ao feto e logo a seguir ao parto, a medicação fez com que eu tivesse de ser pai e mãe para a minha filha.

Tive de aprender tudo rapidamente; pegá-la no  colo, dar banho, mudar fraldas, preparar mamadeiras, dar de mamar de três em três horas, colocar para  arrotar, fazer massagens para as cólicas, as mil e uma coisas que um recém-nascido exige, muitas vezes a plenos pulmões.

Quem já passou pela experiência de um recém-nascido já não pede uma noite de sono, apenas meia-hora sem a ansiedade de saber se está tudo bem com o bebê.

As mães que conhecia, falavam-me de quando se sentiram mães: quando souberam que estavam grávidas, quando viram a primeira ecografia, quando sentiram os primeiros movimentos do bebê, quando pegaram nele a primeira vez após o parto. Para mim eram tretas maternalistas… A minha mãe, mais sincera, e também aterrada durante a sua primeira gravidez, de mim, confessou-me que só ao fim de dois ou três dias é que finalmente se sentiu verdadeiramente mãe.

Por razões de logística genética, não faço a mínima ideia do que se sente ao estar grávida. Sei apenas como eu me senti pai; durante o primeiro mês de vida da minha filha, exausto por tratar das duas, descobri que minha filha a dormia mais sossegada quando a deitava sobre a minha barriga com a cabeça no meu peito (só mais tarde soube que ouvir as batidas do nosso coração deixava ela mais calma). Descobri também, para meu enorme espanto, que era também a única maneira de eu poder dormir meia-hora descansado. Não ficava ansioso com receio que começasse a chorar, não estava preocupado se estaria em boa posição na cama, não tinha receio do que o mundo pudesse fazer à minha filha porque estava comigo e os meus braços á sua volta. Foi aí que percebi que era PAI.

O que me leva de volta à pergunta inicial: Quando é que nos tornamos pais?

Suponho que cada um de nós tenha um determinado momento em que sinta que deixou de ser pai e passou a ser PAI… ou MÃE. Em que este pequeno intruso se torna o nosso bebê. Pode ser quando vemos duas barrinhas num pauzinho com xixi, quando franzimos os olhos para uma tela cheia de nada e vemos uma mão ou um pé, quando dá um pontapé dentro da barriga e começamos a pensar se ficará bem com as cores da seleção, quando não nos importamos de  mudar uma fralda que faria fugir uma doninha fedorenta ou quando temos de mudar de roupa pela terceira vez e continuamos a pôr o bebê a arrotar no nosso colo…

Quando nos tornamos pais recebemos uma sentença perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, e sabem que mais…não me importo…Sou PAI!

Publicado em 12 de dezembro de 2012 / Atualizado em 28 de janeiro de 2013

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