Quanto custa a segurança?…

Texto de opinião

 

Há dias a minha mãe pediu-me para a ajudar a escolher uma cadeirinha de carro para um sobrinho. Por ‘ajudar’ podem entender: eu fui a várias lojas escolher, carregar e possivelmente montar a dita cadeira… Vou tentar encarar este frete como um elogio ao meu sentido paternal e à minha experiência… Por outro lado fez-me pensar nos rios de dinheiro que gastei com a minha filha.

Quando a minha mulher engravidou, eu pretendia ser um pai à moda antiga, ou seja, pagar as contas e dar palpite o menos possível. Infelizmente, devido à doença da minha mulher, tive que me tornar pai e mãe da Mafalda. O que aconteceu foi que tentei compensar a minha ignorância e desajuste com excessiva segurança.

A nossa preocupação e receio em não estarmos bem preparados para a gigantesca tarefa que é criar um filho, abre as portas ao marketing para deitar sal na ferida e fazer-nos comprar coisas completamente desnecessárias.

Com um mês de idade, ainda a Mafalda estava deslumbrada com as suas mãos e os dedos (ou andava tomando drogas alucinógenas às escondidas), e eu já tinha colocado protetores nas tomadas, espumas de borracha em todas as quinas da casa, colocado travas numas portas para não fecharem e fechos de segurança noutras para não abrirem e todos os produtos químicos em lugares fora do alcance. Isto para um bebê que ainda não conseguia pôr a chupeta na boca sozinha…

Durante o mês seguinte tive que ir buscar uma chave de fendas cada vez que queria ligar o computador ou o aquecedor de mamadeiras à tomada, levado com uma porta na cara quando a tentei fechar por causa das correntes de ar, feri vários dedos, várias vezes,  tentando abrir a porcaria dos fechos de segurança e ver as avós a fazer equilibrismo em cima de cadeiras cada vez que precisavam de um químico perigoso como sabonete ou óleo de amêndoas doces… Quanto aos protetores de quinas, a Mafalda encarregou-se de  arrancá-los com os dentes assim que começou a engatinhar.

Foi ainda pior quando comprei o carrinho de bebê, a cadeira para o carro e a cadeira de balanço para casa. Entre os três gastei o ordenado e o subsídio de férias (para os mais novos o subsídio de férias era uma coisa que os vossos pais recebiam para ajudar nas despesas do Natal, o seguro do carro e a prestação da casa; coisas que agora não se pagam).

O carrinho foi daqueles que tem alcofa, coque e carrinho de passeio; a alcofa só a usei cerca de um mês, a coque cerca de quatro, até a Mafalda começar a berrar cada vez que tinha de ir virada para trás no carro e o carrinho foi usado pouco mais porque era demasiado grande e desajeitado por si só. Mais de 600 euros para usar 6 meses, foi uma decisão inteligente!…

A cadeira para carro, cuja marca é Italiana e passa muitas vezes na televisão, pesa mais que a primeira cama da minha filha. Não é exagero, é um monstro maciço. Foi o que me levou a pensar que seria sinônimo de segurança. A realidade é que ainda não consegui desmontá-la uma única vez sem esfolar as mãos e o banco de trás do meu carro está inutilizado para qualquer pessoa que não tenha o traseiro quadrado. Claro que só comecei a dar por este disparate quando comprei a cadeira para o carro dos meus sogros, que cumpre escrupulosamente as mesmas normas de segurança, custou um terço do preço e é de uma marca Portuguesa.

Ainda não contente, achei que a cadeira de balanço que me queriam emprestar não era suficientemente boa para a minha pequena princesa, ainda por cima já estava usada e tinha uma ou duas manchas… Comprei uma fantástica, de marca e que ao fim de dois meses parecia pronta para a incineração de resíduos tóxicos.

Se esse dinheiro não faz falta no orçamento, parabéns! É sério, ainda bem para você. Se do contrário forem como eu e tiveram de trocar as garrafas de bom vinho por mamadeiras de leite tentem não fazer o mesmo absurdo que eu fiz.

As cadeiras para carro obedecem a normas de segurança bastante restritas, portanto, que custem 50 ou 500 são igualmente seguras. Procurem uma que seja relativamente leve e fácil de montar e desmontar. Peçam para experimentar e vejam por vocês mesmos independentemente do que diga a pessoa que está  vendendo. Os carrinhos para levar o bebê devem também seguir as mesmas regras; quando estiver com o bebê chorando no carro e quiser despachar-se para lhe dar de comer ou trocar a fralda a última coisa que vai querer é um carrinho que pesa 20 Kg e precisa de mais botões e alavancas que uma central nuclear.

Se vocês quiserem emprestar ou dar alguma coisa, aceitem! A maior parte das coisas que se compram para as crianças têm 6 meses de validade. Ao fim desse tempo já cresceram, deixaram de usar ou descobriram que afinal não precisavam. A maior parte das vezes que alguém quer dar alguma coisa, faz por três razões: quer livrar-se de um empecilho, quer passar uma coisa em que gastou demasiado dinheiro e não usou o suficiente para achar justificado ou que querem realmente ajudar vocês. Pode não ser por esta ordem, mas as intenções são geralmente boas. Aceitem! Por mais que não queiram, se não precisarem talvez conheçam alguém que precise.

Podem também procurar o que precisam nas lojas de coisas de criança de segunda-mão ou nos sites de vendas na internet. Poupam dinheiro na compra e daqui a uns meses podem vender novamente ou como eu fiz com uma ou outra coisa, emprestar a quem teve filhos depois de mim…

Publicado em 21 de outubro de 2013

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